El Niño deve ganhar força e atingir intensidade muito forte no fim de 2026, com mais calor, secas e chuvas intensas
Fenômeno ainda deve ganhar força e atingir seu pico no fim deste ano. Pacífico está excepcionalmente quente, e próximos meses podem ter mais calor, secas e chuvas intensas em diferentes partes do mundo.
O El Niño deve continuar se intensificando nos próximos meses e alcançar uma intensidade muito forte antes de atingir seu pico no fim de 2026, aponta uma nova atualização da Organização Meteorológica Mundial (OMM), braço meteorológico e climático da Organização das Nações Unidas (ONU).
A previsão chama atenção principalmente pelo grau de confiança. Os modelos reunidos pela agência indicam uma probabilidade de quase 100% de permanência do El Niño tanto entre setembro e novembro quanto entre dezembro e fevereiro de 2027.
Para a OMM, as condições neutras têm chance praticamente nula nesse período, e não há sinal de retorno da La Niña.
Entenda: O El Niño e a La Niña são as duas fases do mesmo fenômeno climático, chamado ENOS (El Niño-Oscilação Sul). O El Niño é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico equatorial.
O cenário é sustentado por um forte aquecimento do Oceano Pacífico e por mudanças na atmosfera compatíveis com um El Niño cada vez mais intenso.
A expectativa é de que o fenômeno continue influenciando as temperaturas e as chuvas em diferentes regiões do planeta já durante a primavera e o verão no Hemisfério Sul.
Ainda assim, a OMM faz uma ressalva importante: a intensidade do El Niño, sozinha, não permite prever o tamanho dos impactos em uma determinada cidade, país ou região.
Outros fatores, como as condições dos oceanos Atlântico e Índico, também podem reforçar ou enfraquecer seus efeitos.
Nos próximos meses, por exemplo, a organização também prevê o desenvolvimento de uma fase positiva do Dipolo do Oceano Índico, além da manutenção de águas mais quentes que o normal no Atlântico Equatorial, padrões que podem modificar a resposta típica ao El Niño.
Por isso, mesmo regiões que historicamente recebem mais ou menos chuva durante episódios fortes podem apresentar diferenças consideráveis de um evento para outro.
“Já estamos vendo transtornos e devastação provocados por secas e enchentes, e esperamos que esses impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifica”, afirmou Celeste Saulo, secretária-geral da OMM.
Pacífico está esquentando rapidamente
Um dos principais sinais do fortalecimento está na chamada região Niño 3.4, uma faixa do Pacífico Equatorial usada pelos cientistas para acompanhar a evolução do El Niño.
Em maio, a temperatura da superfície do mar nessa área estava cerca de 0,9°C acima da média. Em julho, a diferença já havia chegado a 2°C.
Depois disso, medições semanais entre o fim de julho e meados de agosto mostraram valores aproximadamente 2,2°C a 2,6°C acima do normal, indicando que o aquecimento continuou aumentando.
E o calor não está restrito à superfície. Segundo a OMM, em algumas áreas do Pacífico, a água abaixo da superfície chegou a ficar mais de 8°C acima da média em julho e no início de agosto.
Esse reservatório de água excepcionalmente quente é mais um fator que favorece a manutenção e o fortalecimento do El Niño nos próximos meses.
TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE O EL NIÑO:
Os modelos climáticos reunidos pela organização apontam agora que a anomalia média da região Niño 3.4 pode atingir aproximadamente 3,6°C entre setembro e novembro, com o fortalecimento chegando ao máximo entre novembro e dezembro.
A projeção para novembro, isoladamente, chega a 3,9°C acima da média, embora esse valor seja uma estimativa dos modelos e tenha margem de incerteza.
ENTENDA: uma anomalia de 3,6°C não significa que todo o Oceano Pacífico ficará 3,6°C mais quente nem que a temperatura do ar aumentará nessa mesma proporção. O número representa quanto a temperatura da superfície do mar em uma região específica do Pacífico pode ficar acima de sua média histórica.
Mais calor em grande parte do planeta
Além da atualização específica sobre o El Niño, a OMM divulgou uma projeção climática para o período de setembro a novembro de 2026.
- Os modelos indicam maior probabilidade de temperaturas acima do normal em quase todas as grandes áreas continentais, com sinais particularmente consistentes em partes da África, América do Sul, Austrália e Ásia.
Na América do Sul, o sinal de calor é mais forte principalmente entre a linha do Equador e os 30° de latitude sul, faixa que abrange uma parcela significativa do continente. Mais ao sul, a previsão se torna menos uniforme.
As chuvas devem seguir uma distribuição bem diferente de uma região para outra.
No continente sul-americano, os modelos mostram maior probabilidade de volumes abaixo da média no noroeste e ao longo de áreas do norte, ao mesmo tempo em que indicam uma faixa com maior chance de chuva acima do normal no sudeste da América do Sul.
Isso é compatível com uma das características mais conhecidas do El Niño: o fenômeno altera a circulação da atmosfera e pode deslocar os corredores de chuva, fazendo uma região ficar mais úmida ao mesmo tempo em que outra enfrenta condições mais secas.
O que é o El Niño — e por que ele importa tanto
O El Niño é um aquecimento fora do normal das águas do Oceano Pacífico na faixa próxima à linha do Equador.
Ele faz parte de um ciclo natural do clima que alterna fases quentes (El Niño), frias (La Niña) e neutras — com impactos em várias regiões do planeta.
Esse aquecimento muda a circulação da atmosfera e altera o padrão de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.
No Brasil, os efeitos costumam ser desiguais: o Sul tende a ter mais chuva, enquanto áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos.
O fenômeno também influencia a temperatura global. Em anos de El Niño mais intenso, o planeta costuma registrar calor acima da média, somando-se ao aquecimento global.
A intensidade varia de um evento para outro, assim como os impactos. E, com o planeta já mais quente, mesmo episódios moderados podem ter efeitos mais fortes do que no passado.
Possíveis impactos no Brasil
Historicamente, o El Niño altera o padrão de chuva e temperatura no país e causa:
- aumento de chuva no Sul, com risco maior de eventos extremos;
- redução de chuvas no Norte e em partes do Nordeste;
- mais irregularidade nas precipitações no Sudeste e Centro-Oeste;
- maior frequência de ondas de calor.
Segundo especialistas, um dos principais efeitos esperados é o aumento de períodos prolongados de calor, especialmente na primavera e no verão.
Mesmo com a alternância entre La Niña, neutralidade e El Niño, os cientistas destacam que o aquecimento global continua sendo o principal fator por trás das mudanças no clima.
Com os oceanos já mais quentes do que a média histórica, a expectativa é de que os próximos meses sigam registrando temperaturas elevadas em várias regiões do planeta.







