Laura Cardoso morreu aos 98 anos sem se aposentar. Relembre a carreira da atriz e o método rigoroso que marcou sua atuação
“Aposentadoria é quando você morre”, costumava dizer em entrevistas ao longo das últimas décadas, quando surgia, inevitavelmente, a pergunta sobre quando pretendia deixar os palcos e se afastar das câmeras.
Nos últimos anos, a atriz já havia adotado um ritmo mais lento. Sua última novela foi A Dona do Pedaço, de 2019, na qual entrou já na metade da trama. Mas, até o ano passado, ela continuava trabalhando — seu último papel foi o de uma idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus, no curta-metragem Dona Rosinha.
Uma de suas últimas aparições públicas, aliás, revelou o que a artista, nascida em 1927, representou para uma geração de atores: uma professora.
“É a minha mestra, a minha professora. Só não pegou aula com ela quem é burro”, afirmou Susana Vieira, de 83 anos, ao ser homenageada ao lado da atriz em uma calçada da fama montada pela TV Globo em seus estúdios no Rio de Janeiro.
Vieira não detalhou quais foram as lições que tomou com Cardoso. Mas a atriz era lembrada pelos colegas de trabalho, tanto à frente quanto atrás das câmeras, como alguém que encarava a televisão sem vaidades e tratava o ofício artístico como qualquer outro, com dedicação acima de tudo.
“É uma coisa trabalhosa, que chega a dar canseira física, sabe? Quando você está estudando, fica quase que 24 horas ao redor do texto”, contou a atriz em entrevista ao Itaú Cultural para a gravação de vídeos exibidos em uma mostra em sua homenagem, realizada em 2017, em São Paulo.
“Você não pode largar, se é que você quer fazer um bom trabalho. Se é para decorar e falar o que está escrito, aí tudo bem. Mas, se você quiser realmente formar um personagem, construir um personagem que tenha cara, corpo, alma, aí dá trabalho.”
Um método de atuação marcado pelo rigor
Na mesma mostra, em vídeos exibidos no espaço da avenida Paulista, colegas lembravam Cardoso como uma atriz que poderia até exagerar no preparo, por ser pouco afeita à improvisação. Ela ficava brava quando, não só os colegas, mas ela própria esquecia uma única palavra do roteiro.
Laura reconhecia as críticas, mas justificava sua postura dizendo que, mesmo naquela altura, depois de mais de seis décadas de carreira, não se sentia confortável em afrouxar seu método de preparo.
“É meio doído, viu? Eu fico muito mal quando vou construir um personagem. Fico no escuro, como se estivesse num breu, aí eu vou lendo, pensando, pesquisando e, aos poucos, vou vendo meu personagem, vendo como é a cara, o corpo”, ela explicou.
“As pessoas dizem: ‘Não precisa tanto’. Mas, para mim, precisa, senão vou me sentir insegura. Preciso de tempo para pensar, para ler, para decorar, para tudo.”
Rádio e TV feitos ao vivo não aceitavam erros
Filha de imigrantes portugueses, Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni nasceu em 13 de setembro de 1927, em São Paulo, e começou a brincar de representar ainda criança.
Aos seis anos, ela e uma amiga vestiam as roupas das mães e encenavam teatrinhos na rua. Aos 15, contrariando a resistência dos pais, decidiu tentar a sorte no rádio.
Em 1942, fez um teste na Rádio São Paulo, mas não chegou a trabalhar na emissora. No mesmo ano, porém, foi à Rádio Cosmos, onde acabou aprovada para atuar em radionovelas.
“Quase morri de alegria. Comecei assim: fugindo para fazer um teste para trabalhar na rádio”, contou a atriz ao documentário Tributo – Laura Cardoso, produzido pelo Globoplay.
Isso aconteceu em uma época em que tudo era feito ao vivo, sem a possibilidade de acumular cortes e regravações até que o trabalho ficasse bom. Além disso, sem a imagem, os atores precisavam construir os personagens pela voz, o que exigia domínio absoluto do texto.
Foi no rádio, portanto, que a atriz começou a desenvolver a disciplina que marcaria sua carreira.
Deu certo: depois de passar por diferentes emissoras ao longo de uma década, ela chegou à televisão em 1952, na TV Tupi, que havia sido inaugurada dois anos antes.
Estreou em Tribunal do Coração — um programa de júri dramatizado e interativo, baseado em histórias enviadas pelos espectadores —, mas para conquistar espaço precisou insistir.
“Eu passava pela Vida Alves e dizia: ‘Me escala’. Passava pelo Cassiano Gabus Mendes e dizia: ‘Me deixa fazer uma vez; se não gostar, não faço mais'”, contou Cardoso ao programa Persona em Foco, da TV Cultura, em 2015, lembrando diretores fundamentais da televisão brasileira.
Quase uma década de televisão ao vivo
Aquela ainda era, vale lembrar, uma televisão em que o erro tinha outro peso. O videotape, como era chamada a fita magnética usada para gravar os programas, só chegou ao Brasil no fim dos anos 1950.
Cardoso, portanto, passou quase uma década fazendo televisão ao vivo.
Quando chegou ao teatro, já trazia toda essa experiência. Sua estreia nos palcos foi em 1959, em Plantão 21, de Sidney Kingsley, sob direção de Antunes Filho. Ambientada em uma delegacia de polícia de Nova York, a peça reunia cerca de 40 atores e exigia um trabalho de conjunto intenso.
“Passávamos 10, 12 horas dentro do teatro, onde ensaiávamos, ouvíamos palestras e exercitávamos nossa expressão corporal”, lembrou a atriz em entrevista aos organizadores da mostra no Itaú Cultural.
Hoje, contadas à nova geração de atores, a quem Cardoso não poupava críticas, essas histórias podem parecer causos de outro mundo. Mas ajudam a entender a formação da atriz que seria reconhecida como uma das maiores intérpretes do país.
Cardoso deixa duas filhas, três netos e um bisneto. Seu velório acontece nesta terça-feira (18/08) até as 14h em São Paulo.






