Autoridades da Índia monitoram um surto do vírus Nipah em Bengala Ocidental, com cinco casos confirmados e alerta sanitário
Autoridades sanitárias da Índia monitoram nos últimos dias um surto do vírus Nipah na província de Bengala Ocidental, onde cinco casos foram confirmados entre profissionais de saúde de um hospital. Cerca de 100 pessoas foram postas em quarentena nessa unidade de saúde, segundo a agência de notícias Reuters. A Reuters também noticiou que países vizinhos, como Tailândia, Nepal e Taiwan, aumentaram as medidas sanitárias de precaução em aeroportos. O Nipah já foi identificado outras vezes no Sudeste da Ásia. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), pesquisadores descobriram o vírus em 1999, durante um surto entre criadores de porcos na Malásia, e identificam casos com regularidade em Bangladesh e na Índia.
Como o Nipah se transmite
Consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, Benedito Fonseca explicou, em entrevista à Agência Brasil, que a incidência desse vírus se repete na Índia por causa de fatores ambientais e culturais. Ele também afirmou que as formas de transmissão limitam seu alcance, se comparado a micro-organismos que causaram pandemias como a da covid-19 e de influenza. Para o professor de infectologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), é pequeno o potencial do vírus se espalhar pelo planeta e causar uma nova pandemia.
Os especialistas classificam o vírus como zoonótico, porque ele se transmite principalmente de animais para humanos e também por alimentos contaminados. O reservatório natural desse vírus são espécies de morcegos que já foram encontradas em países asiáticos, como Camboja, Índia, Indonésia e Tailândia, e também na África, em Gana e Madagascar. O vírus Nipah se transmite pelo contato com morcegos contaminados, com os fluidos do corpo desses animais ou com frutas contaminadas por eles. Também foram relatados casos de transmissão entre seres humanos, no contato com secreções e durante o cuidado de pacientes infectados em ambientes hospitalares.
Fatores ambientais e culturais
Benedito Fonseca ressalta que o vírus reaparece com frequência em regiões da Índia, o que está ligado à presença dos morcegos, à flora da região e a hábitos alimentares da população.
“Nesta fase do ano, as tamareiras que existem nessa região dão uma seiva muito doce, que os morcegos adoram. Essa seiva é consumida também por pessoas, que geralmente tomam isso puro, sem ferver ou pasteurizar”.
O pesquisador descreve que a saliva do morcego contamina a seiva que, consequentemente, transmite o antígeno a quem a ingere.
“Outra possibilidade é que os morcegos se alimentam de frutas, e essas frutas contaminadas, seja pela urina, seja pelas fezes ou pela saliva, caem no chão. Outros animais, principalmente porcos, se alimentam dessas frutas e acabam tendo a doença”, acrescenta ele.
Sintomas
A Organização Mundial da Saúde indica que os sintomas da doença podem ser severos, como encefalites fatais, e que a letalidade chega a ser maior que 40% dos casos.
Entre os sintomas iniciais estão febre, dor de cabeça, dor muscular, vômitos e dor de garganta. O agravamento pode vir acompanhado de tontura, sonolência, alteração do nível de consciência e sinais neurológicos que indicam encefalite aguda. Algumas pessoas também podem apresentar pneumonia e graves problemas respiratórios.
“Essas pessoas normalmente desenvolvem um quadro de encefalite, com queda do estado geral, febre, rebaixamento do nível de consciência e assim por diante. E realmente tem uma taxa de letalidade alta. Infelizmente, não existe vacina nem existe tratamento para esse vírus. O tratamento é simplesmente o tratamento sintomático”.
Disseminação
O infectologista aponta que, mesmo com relatos de transmissão por secreções de pessoas infectadas, o vírus tem menor potencial de disseminação em nível pandêmico. Isso acontece porque ele se espalha menos do que vírus de transmissão respiratória, como os da covid-19 e do sarampo.
“Os vírus normalmente têm uma relação muito íntima com o seu reservatório. E esse morcego tem uma distribuição grande na Ásia, mas não tem distribuição nem na Europa nem nas Américas. Acredito que o potencial pandêmico, de uma distribuição no mundo todo, é pequeno”, avalia. “Mas não há dúvida de que existe a possibilidade de um potencial ou de um surto epidêmico, como está acontecendo na Índia neste momento”.
Apesar disso, Fonseca defende o monitoramento da situação, porque o tempo de incubação do vírus permite que uma pessoa infectada faça viagens longas antes do surgimento dos sintomas.
“Do momento da infecção até o aparecimento dos sintomas, demora em torno de quatro dias. É possível que uma pessoa se infecte na Ásia e venha para o Brasil, por exemplo, ou para outras partes do mundo, e desenvolva a doença. E ela pode transmitir a doença”.







