Cientista da UFRJ lidera pesquisa com polilaminina que fez seis tetraplégicos recuperarem movimentos e avançou para testes clínicos
Tatiana Lobo Coelho de Sampaio é a mente por trás da descoberta da polilaminina, uma proteína desenvolvida em laboratório para estimular a regeneração de conexões nervosas. A substância deriva da laminina, proteína natural que integra a matriz extracelular e auxilia na organização dos tecidos. A equipe adaptou essa estrutura para criar um composto capaz de formar um ambiente favorável à reconexão de neurônios lesionados. A polilaminina funciona como um suporte biológico que orienta o crescimento de fibras nervosas na região da lesão. Ao ser aplicada diretamente na área afetada da medula espinhal, ela estimula a formação de novos circuitos nervosos. Esse mecanismo busca restabelecer a comunicação interrompida entre cérebro e membros.
Em estudos experimentais, oito voluntários com lesões graves participaram da fase inicial. Seis deles recuperaram movimentos antes considerados irreversíveis. Um dos pacientes, que estava paralisado do ombro para baixo, voltou a caminhar sem auxílio. Os resultados desafiaram a visão tradicional de que lesões completas da medula não permitem recuperação funcional. Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a fase 1 dos testes clínicos para avaliar a segurança da substância em humanos. Cinco voluntários passaram a receber a proteína sob monitoramento médico rigoroso.
A trajetória acadêmica e científica de Tatiana Sampaio
Tatiana construiu toda a sua formação acadêmica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde se graduou em Ciências Biológicas. Ela concluiu mestrado e doutorado com foco em biologia celular e matriz extracelular. Ainda jovem, ingressou na carreira docente e passou a coordenar pesquisas no Instituto de Ciências Biomédicas. A cientista também realizou estágios de pós-doutorado nos Estados Unidos e na Alemanha. Em 1998, ela iniciou o projeto que resultaria na criação da polilaminina.
Desde então, dedicou quase três décadas ao estudo da regeneração nervosa. Tatiana estruturou um laboratório especializado na investigação das lamininas e suas aplicações terapêuticas. Ela formou equipes multidisciplinares e buscou parcerias institucionais para viabilizar o avanço da pesquisa. Ao longo do percurso, enfrentou limitações orçamentárias que impactaram o ritmo dos experimentos. Mesmo assim, manteve a linha de investigação ativa e ampliou a visibilidade internacional do trabalho.
Desafios, patente e impacto para a ciência brasileira
O desenvolvimento da polilaminina também expôs fragilidades no financiamento científico brasileiro. A UFRJ não conseguiu manter a patente internacional da tecnologia entre 2015 e 2016 por falta de recursos para pagar taxas externas. O país perdeu a proteção fora do Brasil, embora o registro nacional tenha avançado posteriormente. Tatiana relatou que os cortes orçamentários comprometeram a estratégia de proteção global da descoberta.
Apesar das dificuldades, a inovação gerou cerca de R$ 3 milhões em royalties para a universidade em 2023. O valor representou o maior retorno financeiro já registrado pela instituição nesse formato. O caso reacendeu o debate sobre investimento contínuo em ciência e tecnologia. Especialistas acompanham os próximos passos com cautela, já que a polilaminina ainda precisa cumprir todas as etapas clínicas antes de eventual aplicação ampla. Ainda assim, os resultados preliminares colocam o Brasil em destaque no campo da medicina regenerativa.






