Levantamento do MapBiomas mostra que R$92,4 bilhões em crédito rural foram destinados a imóveis com alertas ambientais entre 2019 e 2025
O crédito rural público concedido no Brasil entre 2019 e 2025 destinou R$92,4 bilhões a imóveis rurais que apresentam alertas de desmatamento ou degradação da vegetação nativa. Os dados fazem parte da nova edição do Monitor do Crédito Rural, divulgada pelo MapBiomas neste sábado (18). O levantamento identificou cerca de 831 mil operações nessas condições. O valor representa aproximadamente 15% dos R$ 613,18 bilhões financiados pelo crédito rural público no período analisado. A organização destaca, porém, que a existência de um alerta ambiental não significa automaticamente que houve desmatamento ilegal ou irregularidade na concessão do financiamento.
Levantamento amplia monitoramento
A nova edição do Monitor do Crédito Rural ampliou o alcance da análise em relação às versões anteriores. A plataforma passou a integrar informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR) às operações registradas no Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor). A mudança permitiu localizar financiamentos que as áreas financiadas, sozinhas, não identificavam anteriormente. Segundo o pesquisador Paulo Teixeira, do MapBiomas, a quantidade de operações monitoradas mais que dobrou com a atualização. A plataforma cruza os dados do Banco Central com informações geoespaciais produzidas pelo próprio MapBiomas.
Também são consideradas áreas com alertas de desmatamento, embargos ambientais, terras indígenas, unidades de conservação, territórios quilombolas e florestas públicas. O objetivo é ampliar a transparência sobre a destinação dos recursos públicos. O sistema recebe atualizações mensais com os dados mais recentes disponíveis. O levantamento também mostra que mais de 400 instituições financeiras operam crédito rural no país. No entanto, cinco bancos concentram cerca de 60% do volume financiado. Entre eles estão Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Banco da Amazônia, Sicredi e Banrisul.
Perfil das operações
Mais de 68% das operações de crédito rural público tiveram como finalidade investimentos. A pecuária concentrou aproximadamente 58% dos financiamentos analisados. A aquisição de animais respondeu por cerca de 23% das operações. Os bovinos aparecem como o principal produto financiado, presentes em aproximadamente 27% dos contratos. O Banco do Nordeste registrou o maior número de operações entre 2019 e 2025. A instituição respondeu por 56% dos contratos realizados no período.
Já o Banco do Brasil liderou em volume financeiro, com R$ 306 bilhões financiados. Entre as operações que apresentaram sobreposição com áreas socioambientais, o Banco do Nordeste concentrou 63% dos contratos. Em valores, o Banco do Brasil respondeu por 33% dos recursos. O Piauí registrou o maior número de operações com algum tipo de sobreposição ambiental. Tocantins liderou em volume financeiro, seguido por Mato Grosso e Rondônia.
Alerta ambiental não indica irregularidade
O MapBiomas ressalta que um alerta ambiental não representa, por si só, desmatamento ilegal. A plataforma identifica alterações na vegetação nativa por imagens de satélite, mas não avalia a legalidade da supressão. O Código Florestal permite o desmatamento em situações autorizadas pelos órgãos competentes. Para isso, o produtor deve possuir uma Autorização de Supressão de Vegetação. Atualmente, o crédito rural é proibido apenas em áreas oficialmente embargadas pelos órgãos ambientais. Em dezembro de 2024, o Conselho Monetário Nacional aprovou regras para ampliar o controle sobre essas operações.
A medida determina que bancos utilizem alertas de satélite para bloquear financiamentos antes mesmo da emissão de embargos formais. A entrada em vigor da norma, porém, foi adiada para janeiro de 2027. Em nota, Banco do Brasil e Banco do Nordeste afirmaram que seguem a legislação vigente e utilizam sistemas próprios para verificar restrições socioambientais antes da concessão do crédito. As instituições também informaram que monitoram continuamente os financiamentos para prevenir irregularidades e garantir o cumprimento das normas ambientais.






