Levantamento mostra que sistemas eletrônicos de votação são utilizados em pleitos nacionais, regionais e consultas oficiais ao redor do mundo
Às vésperas de completar três décadas de utilização, o sistema eletrônico de votação brasileiro chega às Eleições Gerais de 2026 consolidado como um dos principais pilares de fortalecimento da democracia no país. Ao longo desse período, a tecnologia se firmou como um instrumento decisivo para garantir segurança, agilidade e confiabilidade ao processo eleitoral. Essa mudança marcou a forma como os brasileiros exercem o direito ao voto. Ela também não ocorreu somente no Brasil, já que outras nações utilizam o sistema eletrônico.
Voto eletrônico no mundo
Levantamento do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Idea) aponta que ao menos 34 países utilizam ou já utilizaram algum tipo de sistema eletrônico de votação em processos oficiais, seja em pleitos nacionais, subnacionais ou em consultas específicas. A International IDEA é uma instituição intergovernamental que atua para apoiar e promover democracias ao redor do mundo e tem como parceiros o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP), o Conselho Europeu e outros órgãos. O Brasil se tornou membro da entidade em 2016 por meio do termo de cooperação assinado entre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Ministério das Relações Exteriores (MRE).
O uso do voto eletrônico ao redor do mundo apresenta formatos e alcances distintos, variando de acordo com a legislação eleitoral de cada país. Entre as nações que já recorreram ou recorrem a sistemas de votação eletrônica em diferentes níveis estão: Albânia, Argentina, Armênia, Austrália, Bangladesh, Bélgica, Butão, Brasil, Bulgária, Canadá, Coreia do Sul, El Salvador, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, Estônia, Federação Russa, Fiji, Filipinas, França, Índia, Irã, Iraque, México, Mongólia, Nova Zelândia, Omã, Panamá, Paraguai, Peru, Quirguistão, República Democrática do Congo, República Dominicana, Suíça e Venezuela.
Voto eletrônico no mundo
Segundo o Idea, 17 países utilizam a urna eletrônica (do tipo gravação direta) em eleições gerais, como pleitos presidenciais, parlamentares ou referendos nacionais. O Brasil integra esse grupo, ao lado de nações como Índia, França, Peru e Paraguai, entre outras.
Nesses países que adotam máquinas de votação eletrônica de gravação direta, o eleitor digita o voto, que a máquina grava digitalmente. Em alguns casos, adota-se um sistema híbrido, no qual a urna eletrônica também imprime um comprovante físico do voto. No Brasil, já houve a impressão do voto pela urna eletrônica nas eleições de 1996 e de 2002, mas o seu uso foi descontinuado, uma vez que a impressão é um processo mecânico sujeito a muitas falhas técnicas.
Registro Digital do Voto (RDV)
A urna eletrônica brasileira utiliza o Registro Digital do Voto (RDV), uma ferramenta de segurança que permite a recontagem dos votos, se necessário. O sistema substitui o voto impresso e dispensa a intervenção humana, reduzindo possíveis fraudes e falhas.
O RDV é uma espécie de tabela digital que armazena os votos digitados na urna de forma aleatória. O sistema salva os votos de maneira embaralhada para não comprometer o sigilo da votação. Não há qualquer identificação do eleitor ou da eleitora, nem registro do horário em que o voto foi feito.
Os dados do RDV podem ser auditados e comparados aos dos boletins de urna (BUs), divulgados nos locais de votação e na internet, para comprovar a apuração oficial. Partidos e coligações podem solicitar os RDVs de todas as urnas que quiserem após a conclusão dos trabalhos de totalização. Posteriormente, a Justiça Eleitoral publica esses registros na internet, na página Resultados do seu portal.
Ao contrário de uma cédula de papel com o voto, que pode ser riscada, rasgada ou desviada, o RDV é seguro porque não permite que os dados guardados na urna sejam modificados. Os RDVs são como o voto impresso, mas “impresso digitalmente”.
Testes de Integridade e de Autenticidade
A segurança do modelo de votação brasileiro baseia-se também no isolamento físico das urnas, que não possuem conexão com a internet, Wi-Fi ou Bluetooth, além de múltiplas camadas de criptografia e auditoria. Somada a essa proteção digital, existem outras barreiras. Após a instalação dos softwares, a equipe bloqueia as portas de acesso da máquina com lacres da Casa da Moeda. A tecnologia desses lacres impede violações silenciosas, pois qualquer tentativa de retirá-los causa uma reação química que altera o visual do selo, evidenciando a manipulação.
Semanas antes da eleição no Brasil, entidades fiscalizadoras, incluindo partidos políticos e a Polícia Federal, podem acompanhar todo o processo de preparação das urnas. Já na véspera e no dia do pleito, são realizados os Testes de Integridade e Autenticidade, que comprovam a segurança do sistema. Eles conferem se o voto no papel é idêntico ao registrado eletronicamente e se todos os programas instalados nas urnas são originais, produzidos pelo TSE.
Ao fim da votação, as equipes imprimem os resultados de cada máquina, os boletins de urna, e os colam nas portas das seções. Qualquer cidadão também pode verificar esses arquivos no site da Justiça Eleitoral. Desde a implementação da urna eletrônica, em 1996, não há registro comprovado de nenhuma fraude.
Uso restrito a eleições subnacionais
Segundo o levantamento do Idea, algumas nações adotam certos modelos de votação eletrônica de forma restrita ou complementar. Esse é o caso da Austrália e do México, onde sistemas remotos convivem com o voto em papel, geralmente focados em eleitores no exterior ou com necessidades especiais.
Outros países, como Canadá e Iraque, utilizam sistemas eletrônicos de leitura de cédulas (scanners) para a escolha do governo nacional. Nesses casos, o eleitor marca o papel, e a tecnologia agiliza a contagem dos votos.
Há ainda experiências mais segmentadas, como a da Coreia do Sul, que utiliza o voto em papel nas urnas principais. Os sistemas de votação pela internet (K-Voting) ficam reservados para situações específicas, como eleições partidárias ou consultas.
Experiências internacionais de destaque
Na Índia, a maior democracia do mundo, o país utiliza urnas eletrônicas, conhecidas como EVMs, para coletar os votos de quase um bilhão de eleitores. Diferente do Brasil, onde se digitam números, o modelo indiano foca em símbolos partidários para atender a uma população com diversos dialetos e níveis de letramento.
Nos Estados Unidos, o uso do voto eletrônico é descentralizado. Cada estado (e às vezes cada condado) define seu sistema. Muitos locais utilizam scanners ópticos, nos quais o eleitor preenche o papel e a máquina faz a leitura, ou adotam máquinas de tela sensível ao toque, semelhantes às brasileiras, em jurisdições específicas.
A Estônia é outro país referência mundial em votação digital. Desde 2005, é permitido o voto eletrônico remoto pela internet. Em março de 2023, 51% dos eleitores estonianos votaram on-line, superando pela primeira vez a votação presencial e consolidando um modelo baseado em identidade digital criptografada.
Série sobre os 30 anos da urna eletrônica
Este texto aborda as nações que também utilizam sistemas eletrônicos de votação. Ele faz parte de uma série produzida pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) em comemoração aos 30 anos da urna eletrônica. O primeiro texto resgatou o contexto histórico do edital de licitação que marcou o início de um longo processo para concretizar o sonho do voto eletrônico no Brasil.







